domingo, 8 de novembro de 2009

Em busca do cavalheirismo



Um dia um amigo meu me perguntou por que sou tão desbocado às vezes. “Andei economizando durante alguns anos”, respondi. O debate prosseguiu incluindo temas como a nossa educação formal, lições escotistas, boas maneiras e...o cavalheirismo! Sim, o mesmo cavalheirismo fora de moda, um tanto ultrapassado e, como ensinaram algumas das minhas companheiras feministas, chauvinista, palavra que antes, para mim, servia apenas para designar o nome próprio do porquinho do Cascão. Mas, por algum motivo, não consegui deixar de pensar no cavalheirismo e na figura de alguns cavalheiros, encantadores no que tem de singelos, e profundamente sedutores no que têm de loucos.

Em suas viagens pelo Brasil, Charles Darwin não deixou de se impressionar com a lógica sob a qual funcionavam as boas maneiras das nossas classes abastadas. Extremamente doces e bem comedidas, bastava que lhe contrariassem em uma vírgula as opiniões preconceituosas ou os mesquinhos interesses para que mudassem completamente de atitude. Não sei se encontraríamos ai cavalheirismo, mesmo com todas aquelas maneiras pomposas e comedimentos extremamente falsos, revelando pouca ou nenhuma disposição para com o ser humano, muito menos para com aqueles que não julgam, de forma alguma, serem seus semelhantes.

Foi quando tentei recorrer ao engenhoso fidalgo de La Mancha, em suas exasperadas aventuras pelo amor de sua dulcíssima donzela. Mas como me pareceu cafona tudo isso! Além do mais, ver em uma mulher tudo o que ela não é, somente pelo gosto de encantamento abstrato, falso e ridículo em seus desdobramentos, me parece uma terrível falta de cavalheirismo e respeito à dama, como se a mulher em seus sonhos, belezas e desejos, fosse apenas um objeto ou repositório dos devaneios de um pobre louco. Definitivamente, Dom Quixote também não é um cavalheiro.

Lembrei-me então de uma crítica de cinema realizada pelo poeta Vinicius de Moraes, do filme “Luzes da Cidade”, de Charlin Chaplin, um dos meus preferidos. No subtítulo da crítica podia-se ler: “o perfeito cavalheiro”. De cara, para meu agrado, o poeta travestido em crítico solapa o cavalheirismo impessoal da alta sociedade: “Ser ‘bem’ significa, para essa inoportuna casta, ser igual, ou melhor, ser como a tradição da casta exige: impessoalmente pessoal na elegância, casual na relação, vago no dizer, distante no sentir, e sempre afirmativo no não-ser.” Para logo depois, defender o cavalheirismo de Carlitos, o vagabundo: “Carlitos é o antigrã-fino. Sua adorável elegância parte de uma natureza especialmente bem disposta para com o ser humano. Num mundo e numa sociedade que o ostracizam, esse imortal vagabundo atinge o perfeitamente cordial”. Cordialidade, é claro, que nada tem a ver com aquela dos trópicos, tão bem inspecionada em “Raízes do Brasil”, por Sérgio Buarque de Holanda.

O fato é que Carlitos é mesmo um perfeito cavalheiro. Não por pompa nem por etiqueta, apesar dos levíssimos gestos e trejeitos que compõem sua doçura, mas por sua atitude em relação à vida, sua simplicidade, sua indignação com as injustiças e seu digníssimo amor pela mulher amada. O amor real, aquele feito de medos e coragens, do medo de assustar e da vontade de escrever poesias, mesmo que tudo, a partir daí, já esteja mesmo perdido. Carlitos é o cavalheiro do deixar-se rir só por estar em companhia da bem-amada, é o cavalheiro que humilhado por crianças zombeteiras e grosseiros poderosos não se esquiva dessa estranha vontade de viver a vida altivamente, até o último suspiro.

O verdadeiro cavalheiro, parece mesmo ser aquele que vive impunemente a vida. E aqui não há qualquer juízo hedonista ou dionisíaco que seja. Falo de uma certa circunspecção, de um deixar-se apreciar cada momento, com olhos doces, prontos para abraços e para adeuses, mas eternamente atento e cuidadoso em descobrir um novo mundo, com a mesma pureza de uma criança de olhos esbugalhados e boca aberta, mesmo que ao preço do desleixo das convenções e mesmo ao sacrifício da etiqueta. Talvez o destino de cavalheiros como Carlitos seja mesmo estarem à margem da sociedade, o que aliás parece conferir também uma certa liberdade às suas maneiras e dignidade à sua caridade. Meu deu vontade de rezar pra São Francisco de Assis.

Brindo a esta liberdade, a esta preguiça, a esta doçura. Nem sei se isso deveria mesmo chamar-se cavalheirismo, idéia de um tempo que já passou e parece não ter mais lugar em nossos mundos. Mas a figura do vagabundo Carlitos parece retornar todos os dias, não como incômodo, mas como doce consolação da possibilidade de amar em paz e encontrar justiça nesse sentimento. Sem Carlitos por hora, brinco com os animais. E como me identifiquei com eles nos últimos dias! Não consigo tirar da cabeça o gatinho da “Pensão Familiar” de Manuel Bandeira:

Um gatinho faz pipi.
Com gestos de garçom de restaurant-Palace
Encobre cuidadosamente a mijadinha.
Sai vibrando com elegância a patinha direita:
— É a única criatura fina na pensãozinha burguesa.


O gatinho também é um perfeito cavalheiro.

quarta-feira, 4 de novembro de 2009

Adeus amigo!



A cidade do João

Na mesma noite em que o mundo chorou Levi-Strauss
E a cidade perdeu Verequete
Eu perdi o João
João e os direitos humanos
João e os Nós Outros
João e o Haikai
Ivã Karamazov quis pedir o bilhete da vida de volta
Ele não viu nenhuma peça do João
Ele não viu a cidade do João

E agora todos eles dizem que não entendem
Mas eu te entendo perfeitamente meu amigo
Meu querido amigo João. Logo quem?
Tu que já nasceste com pressa para os adeuses
E mais do que todos nós viveste
Porque foste muitos e porque te lançaste nessa vida
Como se teus minutos andassem para trás e pra frente
Com alguma geometria que só tu entenderias

E essa ferida que agora deixaste em nossos peitos
O que é isso João?
Em nada lembra a amarga vida contida no medo
Mas passeia sobre os nossos olhos como os sonhos mais puros
Sonhos que foste em vida e eternizaste com a tua morte.
Tas vendo João? Nos fazes sofrer como quem ensina a cantar
Mas pra que falar da tua morte?
Tu que cantaste a Internationale
Tu que fizeste promessa de fita e cumpriste
Tu que te apaixonaste silenciosamente

Jamais diria isso para tua pobre mãezinha João
Que hoje terá que enterrar o filho querido
Mas sei que não morreste jovem nem morreste cedo
Porque não foste tragado pelos dias
Tu dobraste o próprio tempo, tu foste teu próprio tempo
Tu foste duro João! E duro te vais sem dar satisfação
Como viveste...
Impunemente. Não tens vergonha João?

Hoje passeio solitário pela tua cidade, pela cidade do João
Mês de Outubro já passou, passaram-se os dias de alegria e fé
O amor que vinha não veio
A novidade também não veio
Mas sinto em mim uma estranha força.

Quem viu alguma peça do João Jamais sentiu vontade de pedir
[o bilhete da vida de volta.

quinta-feira, 29 de outubro de 2009

Democratas: um péssimo exemplo para a juventude e para o Brasil



1 - Acabo de assistir ao horário político obrigatório. Hoje foi o dia do Democratas (DEM) apresentar seu programa político e suas convicções para o povo brasileiro. Não esperava nada diferente do que realmente se deu. Mas não deixa de me intrigar até onde pode chegar a baixeza política, quando não restam mais projetos de sociedade e o ódio de classe, quando não se consegue mais esconder as verdadeiras origens políticas.


2- Em seu "Os demônios" o escritor russo Fiódor Dostoiévski desenvolve uma pesada crítica aos movimentos revolucionários da primeira metade do século XIX na Rússia. Eles, os demônios, segundo o escritor, seriam os responsáveis pela desorganização das bases morais da sociedade, por conspirações desagregadoras e pela impressão do sentimento de pânico e ódio entre os moradores de uma pequena e tradicional comunidade russa. Muitos intelectuais conservadores utilizaram as impressões desenvolvidas na obra para atacar as idéias vinculadas ao pensamento de esquerda ou progressista, atribuindo a esses movimentos, de modo generalizante, a destruição dos laços morais e da paz social. Teriam a mesma tranquilidade para tecer essas críticas no Brasil? Ao julgar pelos seus principais representantes políticos, parece que não.


3 - O programa do Democratas mostrou claramente o que pensa a direita brasileira sobre as instituições democráticas e a Constituição: benéficas até o ponto em que favorecem seus interesses, a despeito de qualquer compromisso sério com os próprios objetivos da República Federativa do Brasil. Um sério exemplo disso é o espaço que dão para setores ligados à velha UDR (União Democrática Ruralista), representados pelo deputado Ronaldo Caiado, despejar seus preconceitos contra os movimentos sociais e a reforma agrária, aproveitando-se do lamentável episódio do MST para defender o latifúndio e suas instituições, que não se cansam de grilar terras, assassinar trabalhadores e contribuir para o quadro fundiário instalado no país. Não esqueceram também de aproveitar o problema da violência enfrentado atualmente para fomentar o caos, alegando a completa ausência do Estado no controle da situação, quando foram eles próprios que ajudaram, desde sua fundação, a desmantelar o Estado brasileiro. Tudo isso sem apontar uma única solução racional para o problema.


4 - No entanto, o fato que mais me preocuparia, se não confiasse na juventude brasileira, é a utilização que o DEM tenta fazer dos jovens em sua propaganda política. Liderados por um ator de talento duvidoso, dezenas de jovens com a cara amarrada e andar de zumbi, acompanham ao mestre enquanto este fala impropérios contra os impostos, a reforma agrária e conclama os jovens brasileiros a lutarem pela maior bandeira do DEM para a educação: o protesto contra o vazamento do ENEM! Enquanto as juventudes de outros partidos, ONGs e movimentos sociais discutem políticas públicas para a juventude, recursos e programas educacionais, o DEM aposta na mobilização contra o ENEM, mostrando o quanto o ódio ao presidente Lula e o que ele representa e qualquer tentativa de desestabilizar o governo brasileiro superam a discussão séria de políticas de estado para esses setores.


5- Restaria ainda a defesa da redução da carga tributária e do Estado eficiente, se a realidade não mostrasse exatamente o contrário. Na oposição, ao mesmo tempo que conseguiu derrubar a CPMF, o DEM e seus aliados vêm tentando imprimir ao governo a aprovação de uma série de projetos que aumentam o gasto público sem qualquer preocupação de equilíbrio a longo prazo, com o único intuito de causar constrangimentos ao governo.


6 - Hoje “Os demônios” continuam a desorganizar as bases da sociedade. Pregam o caos, se apressam ao desacreditar quaisquer bandeiras transformadoras dentro da ordem democrática, apóiam golpes de Estado e denunciam conspirações sem uma única prova de sua existência (vide o final do programa com um suposto encontro secreto entre assessores do presidente). Mas, ao contrário do que imaginaria Dostoievski, eles não são estudantes revolucionários, nem camponeses revoltados. Provêm de famílias ricas e ditas conservadoras, cursaram as melhores universidades e vêm se mantendo por anos e anos nas estruturas de poder. Mas não acreditam no país e no seu povo. Acreditam apenas em seus preconceitos. Eles são representados por um partido político: o DEM. O nome não poderia soar melhor.

domingo, 25 de outubro de 2009

A democracia traída

Acabei de terminar a leitura de "A democracia traída" e gostaria de recomendar a vocês. Se trata de um conjunto de entrevistas com o advogado Raymundo Faoro, um grande estudioso do pensamento político brasileiro que já havia me encantado com seu "Os donos do Poder". Em "A democracia traída" Faoro debate temas como a transição, a constituição de 88, partidos políticos e faz uma análise interessantíssima sobre as nossas tradições e os desafios da democracia brasileira.
Como poucos, não se cansou de denunciar até os últimos dias de sua vida a presença de um estamento patrimonialista que persiste no controle das estruturas de poder, os malefícios do capitalismo politicamente dirigido e da democracia tutelada.
Faoro também não poupa críticas à elite que considera responsável em grande parte pelo nosso atraso. Segundo ele, " O que a elite faz é ignorar o povo, pensa que o povo não existe. E até agora não tem existido. No dia em que o povo existir vai ser uma surpresa, talvez uma surpresa que vai tumultuar a paz desses cidadãos".
Encontrei nessas páginas um democrata convicto, um homem de esquerda que acredita nas liberdades como valores universais e um defensor da cidadania do povo humilde desse país. "A democracia traída" me trouxe reflexões importantes sobre o processo político e colocou de alguma forma elementos importantes na luta pela construção dessa república inacabada.

quarta-feira, 21 de outubro de 2009

E por falar em poeta camarada


Ausência

Eu deixarei que morra em mim o desejo de amar os teus olhos que são doces
Porque nada te poderei dar senão a mágoa de me veres eternamente exausto.
No entanto a tua presença é qualquer coisa como a luz e a vida
E eu sinto que em meu gesto existe o teu gesto e em minha voz a tua voz.
Não te quero ter porque em meu ser tudo estaria terminado
Quero só que surjas em mim como a fé nos desesperados
Para que eu possa levar uma gota de orvalho nesta terra amaldiçoada
Que ficou sobre a minha carne como uma nódoa do passado.
Eu deixarei... tu irás e encostarás a tua face em outra face
Teus dedos enlaçarão outros dedos e tu desabrocharás para a madrugada
Mas tu não saberás que quem te colheu fui eu, porque eu fui o grande íntimo da noite
Porque eu encostei minha face na face da noite e ouvi a tua fala amorosa
Porque meus dedos enlaçaram os dedos da névoa suspensos no espaço
E eu trouxe até mim a misteriosa essência do teu abandono desordenado.
Eu ficarei só como os veleiros nos portos silenciosos
Mas eu te possuirei mais que ninguém porque poderei partir
E todas as lamentações do mar, do vento, do céu, das aves, das estrelas
Serão a tua voz presente, a tua voz ausente, a tua voz serenizada.

Boemia..

O último domingo foi um dia especial. Nossos companheiros de Ananindeua, pelo sétimo ano consecutivo, comemoraram o "Dia do poeta camarada". Fui lá para conferir. Um tanto afastado dos bares e da boemia daquelas bandas, quis rever antigos amigos e parceiros de muitas lutas. Não pude deixar de me emocionar mais uma vez. Com as músicas cantadas por artistas da nossa terra, com a poesia compartilhada por velhos camaradas e com essa força estranha que nasce de homens e mulheres que sonham os mesmos sonhos ou simplesmente compartilham algum sentimento da vida.
Foi um dia para rever meu grande irmão mais velho Pedro Nelito e seu novo visual "sábio da terra média", Oliviomar e seu sorriso tranquilo e infalível como o índio de Caetano e, claro, como não poderia deixar de ser,o nosso grande artista Bueres. Este último, por sinal, andava um pouco triste. "Que foi Duda?", perguntei. "Nada rapaz", respondeu ele com um ar taciturno. Depois de um tempo, um tanto incomodado com a minha insistência, ele desembrulhou um papel amaçado, com letras borradas, como se tivesse sido encontrado às margens de um igarapé. Limpei as lentes para ler. Enquanto minha vista passava pelo papel pude ver aflição nos olhos do amigo Bueres. Quando finalmente compreendi a sentença, apenas segurei seu ombro e balancei a cabeça. O bilhete dizia assim: "Duda eu te amo, mas me deixe. Só como Chucrute. Enjoei pirão de peixe".
Foi um dia "para rever os rios de montes e cascatas, sonhar em novas serenatas" e mais do que tudo, "abraçar amigos leais". Tudo, é claro, regado à samba e muita cerveja. Espero ainda ter muitos dias como esse para contar.

quinta-feira, 15 de outubro de 2009

Dia do professor




Canção para os fonemas da alegria (A Paulo Freire)

Thiago de Mello


Peço licença para algumas coisas.
Primeiramente para desfraldar
este canto de amor publicamente.

Sucede que só sei dizer amor
quando reparto o ramo azul de estrelas
que em meu peito floresce de menino.

Peço licença para soletrar,
no alfabeto do sol pernambucano
a palavra ti-jo-lo, por exemplo,

e poder ver que dentro dela vivem
paredes, aconchegos e janelas,
e descobrir que todos os fonemas

são mágicos sinais que vão se abrindo
constelação de girassóis gerando
em círculos de amor que de repente
estalam como flor no chão da casa.

Às vezes nem há casa: é só o chão.
Mas sobre o chão quem reina agora é um homem
diferente, que acaba de nascer:

porque unindo pedaços de palavras
aos poucos vai unindo argila e orvalho,
tristeza e pão, cambão e beija-flor,

e acaba por unir a própria vida
no seu peito partida e repartida
quando afinal descobre num clarão

que o mundo é seu também, que o seu trabalho
não é a pena paga por ser homem,
mas o modo de amar – e de ajudar

o mundo a ser melhor. Peço licença
para avisar que, ao gosto de Jesus,
este homem renascido é um homem novo:

ele atravessa os campos espalhando
a boa-nova, e chama os companheiros
a pelejar no limpo, fronte a fronte

contra o bicho de quatrocentos anos,
mas cujo fel espesso não resiste
a quarenta horas de total ternura.

Peço licença para terminar
soletrando a canção de rebeldia
que existe nos fonemas da alegria:

canção de amor geral que eu vi crescer
nos olhos do homem que aprendeu a ler.

Santiago do Chile, primavera 1964.