Um dia um amigo meu me perguntou por que sou tão desbocado às vezes. “Andei economizando durante alguns anos”, respondi. O debate prosseguiu incluindo temas como a nossa educação formal, lições escotistas, boas maneiras e...o cavalheirismo! Sim, o mesmo cavalheirismo fora de moda, um tanto ultrapassado e, como ensinaram algumas das minhas companheiras feministas, chauvinista, palavra que antes, para mim, servia apenas para designar o nome próprio do porquinho do Cascão. Mas, por algum motivo, não consegui deixar de pensar no cavalheirismo e na figura de alguns cavalheiros, encantadores no que tem de singelos, e profundamente sedutores no que têm de loucos.
Em suas viagens pelo Brasil, Charles Darwin não deixou de se impressionar com a lógica sob a qual funcionavam as boas maneiras das nossas classes abastadas. Extremamente doces e bem comedidas, bastava que lhe contrariassem em uma vírgula as opiniões preconceituosas ou os mesquinhos interesses para que mudassem completamente de atitude. Não sei se encontraríamos ai cavalheirismo, mesmo com todas aquelas maneiras pomposas e comedimentos extremamente falsos, revelando pouca ou nenhuma disposição para com o ser humano, muito menos para com aqueles que não julgam, de forma alguma, serem seus semelhantes.
Foi quando tentei recorrer ao engenhoso fidalgo de
Lembrei-me então de uma crítica de cinema realizada pelo poeta Vinicius de Moraes, do filme “Luzes da Cidade”, de Charlin Chaplin, um dos meus preferidos. No subtítulo da crítica podia-se ler: “o perfeito cavalheiro”. De cara, para meu agrado, o poeta travestido em crítico solapa o cavalheirismo impessoal da alta sociedade: “Ser ‘bem’ significa, para essa inoportuna casta, ser igual, ou melhor, ser como a tradição da casta exige: impessoalmente pessoal na elegância, casual na relação, vago no dizer, distante no sentir, e sempre afirmativo no não-ser.” Para logo depois, defender o cavalheirismo de Carlitos, o vagabundo: “Carlitos é o antigrã-fino. Sua adorável elegância parte de uma natureza especialmente bem disposta para com o ser humano. Num mundo e numa sociedade que o ostracizam, esse imortal vagabundo atinge o perfeitamente cordial”. Cordialidade, é claro, que nada tem a ver com aquela dos trópicos, tão bem inspecionada em “Raízes do Brasil”, por Sérgio Buarque de Holanda.
O fato é que Carlitos é mesmo um perfeito cavalheiro. Não por pompa nem por etiqueta, apesar dos levíssimos gestos e trejeitos que compõem sua doçura, mas por sua atitude em relação à vida, sua simplicidade, sua indignação com as injustiças e seu digníssimo amor pela mulher amada. O amor real, aquele feito de medos e coragens, do medo de assustar e da vontade de escrever poesias, mesmo que tudo, a partir daí, já esteja mesmo perdido. Carlitos é o cavalheiro do deixar-se rir só por estar em companhia da bem-amada, é o cavalheiro que humilhado por crianças zombeteiras e grosseiros poderosos não se esquiva dessa estranha vontade de viver a vida altivamente, até o último suspiro.
O verdadeiro cavalheiro, parece mesmo ser aquele que vive impunemente a vida. E aqui não há qualquer juízo hedonista ou dionisíaco que seja. Falo de uma certa circunspecção, de um deixar-se apreciar cada momento, com olhos doces, prontos para abraços e para adeuses, mas eternamente atento e cuidadoso em descobrir um novo mundo, com a mesma pureza de uma criança de olhos esbugalhados e boca aberta, mesmo que ao preço do desleixo das convenções e mesmo ao sacrifício da etiqueta. Talvez o destino de cavalheiros como Carlitos seja mesmo estarem à margem da sociedade, o que aliás parece conferir também uma certa liberdade às suas maneiras e dignidade à sua caridade. Meu deu vontade de rezar pra São Francisco de Assis.
Brindo a esta liberdade, a esta preguiça, a esta doçura. Nem sei se isso deveria mesmo chamar-se cavalheirismo, idéia de um tempo que já passou e parece não ter mais lugar em nossos mundos. Mas a figura do vagabundo Carlitos parece retornar todos os dias, não como incômodo, mas como doce consolação da possibilidade de amar em paz e encontrar justiça nesse sentimento. Sem Carlitos por hora, brinco com os animais. E como me identifiquei com eles nos últimos dias! Não consigo tirar da cabeça o gatinho da “Pensão Familiar” de Manuel Bandeira:
Um gatinho faz pipi.
Com gestos de garçom de restaurant-Palace
Encobre cuidadosamente a mijadinha.
Sai vibrando com elegância a patinha direita:
— É a única criatura fina na pensãozinha burguesa.
O gatinho também é um perfeito cavalheiro.




